quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A poesia social

A vertente social da poesia recebe o nome de condoreirismo e os poetas que escrevem sobre os temas sociais são chamados de condoreiros. Alguns dos condoreiros são Castro Alves ,  Sousândrade e Pedro Luís , que se inspiravam nos princípios libertários de Victor Hugo. Os condoreiros escreviam e debatiam apaixonadamente sobre a s questões sociais , principalmente sobre a escravidão. A circulação ocorria por saraus, bailes ou associações estudantis e ao lado desses veículos de circulção o jornal ganhava seu papel na divulgação. Os condoreiros tinham como alvo um público mais numeroso , para isso eles vão a praças e teatros declamar seus poemas. Este poeta que declama seus poemas é chamado de poeta-orador. O condoreirismo tem características marcantes como , por exemplo , tom de oratória nos poemas declamados , uso de vocativos , uso de imagens exageradas, hiperbólicas, com o intuito de despertar emoções mais fortes nos leitores.
Essas  características podem aparecer no poema "Vozes d'África" de Castro Alves:

VOZES D'ÁFRICA
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? 
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes 
Embuçado nos céus? 
Há dois mil anos te mandei meu grito, 
Que embalde desde então corre o infinito... 
Onde estás, Senhor Deus?... 

  
Neste poema a África  dirige um apelo a Deus para acabar com um sofrimento dos africanos que  estão sofrendo como escravos e a utilização de vocativos (Deus) dá um tom de grandiosidade nos primeiros versos, entre outras características presentes neste trecho do poema.

Uma grande diferença da terceira geração em relação às outras antecedentes é que o sentimento de natureza é trocado pelo de de humanidade  a ordem do coração é substituída pela do pensamento. Castro Alves em um de seus poemas desafia o leitor a entrar em uma senzala:

Tragédia no lar 


Na Senzala, úmida, estreita,

Brilha a chama da candeia,
No sapé se esgueira o vento.
E a luz da fogueira ateia.
Junto ao fogo, uma africana,
Sentada, o filho embalando,
Vai lentamente cantando
Uma tirana indolente,
Repassada de aflição.
E o menino ri contente...
Mas treme e grita gelado,
Se nas palhas do telhado
Ruge o vento do sertão.
Se o canto pára um momento,
Chora a criança imprudente ...
Mas continua a cantiga ...
E ri sem ver o tormento
Daquele amargo cantar.
Ai! triste, que enxugas rindo
Os prantos que vão caindo
Do fundo, materno olhar,
E nas mãozinhas brilhantes
Agitas como diamantes
Os prantos do seu pensar ...
E voz como um soluço lacerante
Continua a cantar:
"Eu sou como a garça triste
"Que mora à beira do rio,
"As orvalhadas da noite
"Me fazem tremer de frio.
"Me fazem tremer de frio
"Como os juncos da lagoa;
"Feliz da araponga errante
"Que é livre, que livre voa.
"Que é livre, que livre voa
"Para as bandas do seu ninho,
"E nas braúnas à tarde
"Canta longe do caminho.
"Canta longe do caminho.
"Por onde o vaqueiro trilha,
"Se quer descansar as asas
"Tem a palmeira, a baunilha.
"Tem a palmeira, a baunilha,
"Tem o brejo, a lavadeira,
"Tem as campinas, as flores,
"Tem a relva, a trepadeira,
"Tem a relva, a trepadeira,
"Todas têm os seus amores,
"Eu não tenho mãe nem filhos,
"Nem irmão, nem lar, nem flores".
A cantiga cessou. . . Vinha da estrada
A trote largo, linda cavalhada 
De estranho viajor,
Na porta da fazenda eles paravam,
Das mulas boleadas apeavam
E batiam na porta do senhor.
Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,
Sorrisos sensuais, sinistro olhar,
Os bigodes retorcidos,
O cigarro a fumegar,
O rebenque prateado
Do pulso dependurado,
Largas chilenas luzidas,
Que vão tinindo no chão,
E as garruchas embebidas
No bordado cinturão.
A porta da fazenda foi aberta;
Entraram no salão.
Por que tremes mulher? A noite é calma, 
Um bulício remoto agita a palma 
Do vasto coqueiral.
Tem pérolas o rio, a noite lumes,
A mata sombras, o sertão perfumes,
Murmúrio o bananal.
Por que tremes, mulher? Que estranho crime,
Que remorso cruel assim te oprime
E te curva a cerviz?
O que nas dobras do vestido ocultas? 
É um roubo talvez que aí sepultas?
É seu filho ... Infeliz! ...
Ser mãe é um crime, ter um filho - roubo! 
Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,
Para ti - não há luz.
Tens a noite no corpo, a noite na alma, 
Pedra que a humanidade pisa calma, 
— Cristo que verga à cruz!
Na hipérbole do ousado cataclisma
Um dia Deus morreu... fuzila um prisma
Do Calvário ao Tabor!
Viu-se então de Palmira os pétreos ossos, 
De Babel o cadáver de destroços 
Mais lívidos de horror.
Era o relampejar da liberdade
Nas nuvens do chorar da humanidade,
Ou sarça do Sinai,
— Relâmpagos que ferem de desmaios...
Revoluções, vós deles sois os raios,
Escravos, esperai! ...
Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Que o teu vestido bordado
Vem comigo, mas ... cuidado ...
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.
Não venhas tu que achas triste 
Às vezes a própria festa. 
Tu, grande, que nunca ouviste 
Senão gemidos da orquestra
Por que despertar tu'alma, 
Em sedas adormecida,
Esta excrescência da vida
Que ocultas com tanto esmero?
E o coração - tredo lodo,
Fezes d'ânfora doirada
Negra serpe, que enraivada,
Morde a cauda, morde o dorso
E sangra às vezes piedade,
E sangra às vezes remorso?...
Não venham esses que negam
A esmola ao leproso, ao pobre.
A luva branca do nobre
Oh! senhores, não mancheis...
Os pés lá pisam em lama,
Porém as frontes são puras
Mas vós nas faces impuras
Tendes lodo, e pus nos pés.
Porém vós, que no lixo do oceano
A pérola de luz ides buscar,
Mergulhadores deste pego insano
Da sociedade, deste tredo mar.
Vinde ver como rasgam-se as entranhas
De uma raça de novos Prometeus,
Ai! vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus.
— Escrava, dá-me teu filho!
Senhores, ide-lo ver:
É forte, de uma raça bem provada,
Havemos tudo fazer.
Assim dizia o fazendeiro, rindo, 
E agitava o chicote...
A mãe que ouvia 
Imóvel, pasma, doida, sem razão! 
À Virgem Santa pedia 
Com prantos por oração;
E os olhos no ar erguia 
Que a voz não podia, não.
— Dá-me teu filho! repetiu fremente
o senhor, de sobr'olho carregado.
— Impossível!...
— Que dizes, miserável?!
— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides...
— Sim, que o vou vender!
— Vender?!. . . Vender meu filho?!
Senhor, por piedade, não
Vós sois bom antes do peito
Me arranqueis o coração!
Por piedade, matai-me! Oh! É impossível
Que me roubem da vida o único bem!
Apenas sabe rir é tão pequeno!
Inda não sabe me chamar? Também
Senhor, vós tendes filhos... quem não tem?
Se alguém quisesse os vender
Havíeis muito chorar
Havíeis muito gemer,
Diríeis a rir — Perdão?!
Deixai meu filho... arrancai-me
Antes a alma e o coração!
— Cala-te miserável! Meus senhores,
O escravo podeis ver ...
E a mãe em pranto aos pés dos mercadores
Atirou-se a gemer.
— Senhores! basta a desgraça
De não ter pátria nem lar, -
De ter honra e ser vendida
De ter alma e nunca amar!
Deixai à noite que chora
Que espere ao menos a aurora,
Ao ramo seco uma flor;
Deixai o pássaro ao ninho,
Deixai à mãe o filhinho,
Deixai à desgraça o amor.
Meu filho é-me a sombra amiga
Neste deserto cruel!...
Flor de inocência e candura.
Favo de amor e de mel!
Seu riso é minha alvorada, 
Sua lágrima doirada
Minha estrela, minha luz! 
É da vida o único brilho 
Meu filho! é mais... é meu filho 
Deixai-mo em nome da Cruz!...
Porém nada comove homens de pedra,
Sepulcros onde é morto o coração.
A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!
Mudou-se a cena. Já vistes
Bramir na mata o jaguar,
E no furor desmedido
Saltar, raivando atrevido.
O ramo, o tronco estalar,
Morder os cães que o morderam...
De vítima feita algoz,
Em sangue e horror envolvido
Terrível, bravo, feroz?
Assim a escrava da criança ao grito
Destemida saltou,
E a turba dos senhores aterrada
Ante ela recuou.
— Nem mais um passo, cobardes!
Nem mais um passo! ladrões!
Se os outros roubam as bolsas,
Vós roubais os corações! ...
Entram três negros possantes, 
Brilham punhais traiçoeiros... 
Rolam por terra os primeiros 
Da morte nas contorções.
Um momento depois a cavalgada 
Levava a trote largo pela estrada 
A criança a chorar.
Na fazenda o azorrague então se ouvia 
E aos golpes - uma doida respondia
Com frio gargalhar! ...


 Outra questão abordada pelos condoreiros foi sobre a identidade americana e um dos condoreiros que se aprofunda neste tema é o Sousândrade.Sousândrade aborda não apenas o Brasil, mas exalta o cenário de todo o continente americano o chamado "Novo Continente". Em seu poema épico ele retoma uma lenda de índios que habitavem as antigas regiões da Bolívia e do Peru:


O guesa errante

Eia, imaginação divina! 

Os Andes 
Vulcânicos elevam cumes calvos, 
Circundados de gelos, mudos, alvos, 
Nuvens flutuando – que espetac’los grandes! 
Lá onde o ponto do condor negreja, 
Cintilando no espaço como brilhos 
D’olhos, e cai a prumo sobre os filhos 
Do lhama descuidado; onde deserto, 
O azul sertão, formoso e deslumbrante, 
Arde do sol o incêndio, delirante 
Coração vivo em céu profundo aberto! 
“Nos áureos tempos, nos jardins da América 
Infante adoração dobrando a crença 
Ante o belo sinal, nuvem ibérica 
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa. 
“Cândidos Incas! Quando já campeiam 
Os hérois vencedores do inocente 
Índio nu; quando os templos s’incendeiam, 
Já sem virgens, sem ouro reluzente, 
“Sem as sombras dos reis filhos de Manco, 
Viu-se… (que tinham feito? e pouco havia 
A Fazer-se…) num leito puro e branco 
A corrupção, que os braços estendia! 
“E da existência meiga, afortunada, 
O róseo fio nesse albor ameno 
Foi destruído. Como ensaguentada 
A terra fez sorrir ao céu sereno! 
“Foi tal a maldição dos que caídos 
Morderam dessa mãe querida o seio, 
A contrair-se aos beijos, denegridos, 
O desespero se imprimi-los veio, - 
“Que ressentiu-se verdejante e válido, 
O floripôndio em flor; e quando o vento 
Mugindo estorce-o doloroso, pálido, 
Gemidos se ouvem no amplo firmamento! 
“E o sol, que resplandece na montanha 
As noivas não encontra, não se abraçam 
No puro amor; e os fanfarrões d’Espanha, 
Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

Amistad

Mais um exemplo da influência de Castro Alves na atualidade é o filme "Amistad", de Steven Spielberg.
A história remonta ao ano de 1839 e é baseada em factos verídicos que ocorreram a bordo do navio La Amistad. O filme relata a luta de um grupo de escravos africanos em território americano, desde a sua revolta até seu julgamento e libertação.

Através desta trama de forte conteúdo emocional, é possível conhecer as condições de captura e transporte de escravos africanos para os trabalhos na América do Norte, a máquina jurídica americana de meados do século XIX e o germe das primeiras medidas para a abolição da escravatura naquele território.

(Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Amistad)

Romantismo na atualidade

Algumas características do romantismo social ainda se encontram na atualidade.
Um exemplo é o programa da rede bandeirantes, A Liga, que expressa fortemente uma revolta social contra temas polêmicos. Um deles é a escravidão, tratado na época do romantismo por Castro Alves.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Boas maneiras românticas

Em alguns romances foi desenhado o perfil de uma sociedade, que precisava se ver nos textos literários. Em determinadas cenas percebemos ensinamentos comportamentais. Ainda hoje percebemos uma produção literária marcada por essa característica,que é ensinar pessoas as boas maneiras. E esses costumes foram passados para o resto da sociedade a partir do romantismo , período em que houve um aumento do número de leitores e da divulgação literária. A leitura passou a ser uma prática muito importante para toda a sociedade brasileira, que retirava desde ações até pensamentos que os autores pretendiam passar para eles.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O romantismo e a produção literária

O romantismo teve um importante papel na produção literária brasileira e na profissionalização dos escritores. Na época do romantismo os escritores dependiam da venda de livros , por isso passaram a escrever mais. A circulação de romances ocorria, geralmente, nos jornais, antes chamados de periódicos. Essa circulação de romances em jornais ajudou ao crescimento de leitores. Atualmente, podemos perceber o importante papel que os jornais têm , não só de divulgação de notícias, mas também    de anúncios e propagandas, papel esse que cresceu desde o romantismo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A sociedade dos Romances urbanos

A década de 1830 trouxe para os brasileiros a possibilidade de leitura de romances estrangeiros. Assim entusiasmados pelo sucesso dos mesmos, aventuravam-se pouco a pouco à escrita de outros, como o romance ' O filho do pescador' (1843), de Teixeira e Sousa. Este e os seguintes romances trouxeram a representação dos costumes da elite brasileira e histórias de amor envolvendo as moças da corte. Desta maneira, o Romance urbano teve como características a ilustração de paixões e o comportamento de uma classe social específica da época: a elite brasileira.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Jantar no Brasil




Jean Baptiste Debret - Jantar no Brasil (1839)
Este quadro retrata um pouco do contraste social vivido no Brasil no século XIX. Sentado à mesa, um nobre casal desfruta de seu conforto ao lado de uma pequena família de escravos.

Introdução

            

      Há muito tempo o Romantismo exerce um papel essencial no contexto social brasileiro. Muito usado como meio de coercitividade social, por meio de autores como Joaquim Manoel de Macedo e José de Alencar, o Romance Urbano tende a construir um modelo comportamental, sendo esse inspirado pelos ideais dos membros da corte portuguesa.
      Investe, também, na construção de uma identidade nacional. Usa-se como recurso as referências a elementos que o leitor possa reconhecer no mundo onde vive, dando às obras um ar de familiaridade.
      Com a chegada do Romantismo, há uma maior acessibilidade à leitura, sendo essa antes apenas usufruída pela nobreza vigente, geralmente homens.
      A crítica social também está presente nos romances, como, por exemplo, em "Senhora", de José de Alencar. Conduzem o olhar do leitor a uma análise mais apurada de comportamentos que merecem maior reflexão, criticando valores condenáveis.  No caso de Alencar, heróis e heroínas apresentam caracterização mais humana, sendo vítimas das pressões socioeconômicas.
Manoel Joaquim de Macedo faz uma análise das classes menos favorecidas economicamente. No romance "Memórias de um Sargento de Milícias", o protagonista, além da maioria das personagens, são muito pressionados pela necessidade, recorrendo a pequenos golpes e explorando relações de influência e opressão.
      Percebemos nesse aspecto do Romantismo o início da produção literária brasileira, além de, junto à mesma, a formação de uma ideologia nacional, agora própria de todas as classes sociais, e o impulsionamento às primeiras críticas sociais, as quais podemos ver até os dias de hoje.

Trabalho feito por:
Gabriel Nunes nº 8
Paulo de Tarso nº 20
Tulio de Moura nº26